resenhas dos livros que me pegam
Memórias das minhas putas tristes de Gabriel García Márquez
Esta obra escancara a animosidade de Gabo diante da temática abordada. O livro conta a história de um jornalista que, ao completar 90 anos, presenteia a si mesmo com uma noite de sexo na companhia de uma virgem. Durante o encontro, a relação não é consumada, mas ele se apaixona pela jovem. Ao longo da história vemos a descoberta do amor após uma vida de relações vazias. A leitura se mostra polêmica e gera uma rejeição instantânea. Conforme percorria as páginas, senti necessidade de desvendar as nuances da mente humana. Este personagem tinha até a última linha para me convencer que deveria continuar sendo ouvido, apesar de suas escolhas dizerem o contrário. Gabriel Garcia Márquez deixou um desconforto latente enquanto me fazia visitar o passado dramático de seu personagem que não tinha nome. A face sombria do ser humano descrita com naturalidade, ao mesmo tempo vendo nascer uma pureza não sentida durante toda vida. Apesar dos momentos de demonstração de afeto genuíno, o cronista expõe o sentimento de posse através de cenas grosseiras, como quando ele acredita ter perdido a mulher que lhe pertence. O incômodo da leitura também vem da dificuldade de acompanhar o diário da solidão. No fim, levamos o que fizemos. Gabriel devia saber o que estava deixando e respeitava sua liberdade de permitir uma obra densa percorrer caminhos diferentes em cada tempo.
Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo
Olívia é a figura central desta obra. Curioso afirmar isto de uma personagem que morre, visto que a morte simboliza o fim e a vivacidade e a sequência dos fatos direcionam nosso interesse pelas histórias. Porém, antes mesmo de Olívia surgir na narrativa, já era uma ausência sentida na vida do protagonista Eugênio Fontes. A narrativa começa enquanto a médica se despede da vida e um flashback leva o leitor a entender o que havia acontecido até ali. A ternura que aplaca a dureza da vida é encontrada na essência de Olívia que figura o bom senso inexistente nas decisões de Eugênio. Mas qual seria o erro em ter ambições diante da pobreza? O complexo de inferioridade leva um protagonista de personalidade fraca a desprezar ter sua imagem associada aos pais humildes e depois se casar por status social. Ao entrar para a elite, continua figurando a margem dos encontros e diálogos. Ele não é parte daquilo que almejou a vida inteira. Tanto a médica quanto a consciência de Eugênio não o exigem compromisso algum, mas ainda assim a mudança interna virá com o tempo. Érico Veríssimo inclui passagens bíblicas e a fé em Deus na proposta de confronto entre os valores que importam para sermos pessoas úteis uns aos outros no mundo. Menos ambição, mais compreensão. O protagonista não pode mudar as escolhas que fez, mas é profundamente modificado pelas consequências das escolhas que fez. Olívia segue viva através das cartas que não enviou para seu amado enquanto vivia em Nova Itália e da filha Anamaria que traz a esperança de uma vida realmente significativa para Eugênio. Ainda estou a espera de Ernesto Fontes ser encontrado, mesmo sabendo o que simboliza o seu sumiço. Lamento a morte da inocência de Dora e o prestígio do poder de seu pai. Esta obra deixa espaços abertos para uma constante reflexão e para continuar acreditando fazermos a vida renascer.
O Capote de Nikolai Gogol
Já dizia o crítico francês Eugène-Melchior de Vogüé: “Todos nós saímos de O Capote de Gógol”. Com uma escrita leve e instigante, me senti conversando com o autor que é simbolo da Literatura Russa. Neste livro chamado “ O Capote”, fui criando a expectativa de um acontecimento trágico na vida do personagem principal, enquanto ia lendo sobre sua trajetória e características. Até perceber que a reviravolta no fim da história é a real surpresa. Gógol faz uma crítica social (que você pode entender o contexto histórico fazendo uma pesquisa na internet), de cunho tragicômico. Estamos falando de Akáki Akákievitch, um funcionário público fracassado, ignorado por seus pares, sem parentes e que junta pouco a pouco do seu dinheiro para pagar um alfaiate que fará um sobretudo novo com a função de o proteger no inverno. A partir de então, tudo é regido pela realização do objetivo. Não é complicado reconhecer os comportamentos e problemáticas dos envolvidos na narrativa. Explicar detalhes é entregar a graça que vai sendo construída nesta leitura. Arrisco dizer que, o trabalho realista com pedaços de surrealismo de Nikolai me lembrou novelas construídas com realismo fantástico. Poderia citar várias cenas, mas a que me veio quase que instantaneamente, após terminar o livro, foi da fabulosa atriz Eva Wilma na novela “A Indomada”. Uma de suas personagens mais marcantes, a vilã Altiva, morre e seu espírito aparece gargalhando e jurando vingança. Podemos mesmo sair todos do Capote de Gogol.
Antes de nascer o mundo de Mia Couto
Estou com dificuldade de superar esta leitura. Mwanito, você ainda tinha tanto a me contar! Fui crescendo enquanto você descobria que o mundo não era apenas Jesusalém, aquela terra que tinha a missão de limpar as dores passadas. A inocência e curiosidade do nosso narrador vão costurando os acontecimentos que, apesar de difíceis, são descritos poeticamente por Mia Couto. Para seu pai, Silvestre Vitalicio, era possível esquecer os acontecimentos e abafar suas mágoas ignorando a humanidade. Ele havia se animalizado e são quase nulas as menções de confiança e afeto entre ele e seus familiares. Mas o mundo vivia na inquietude de Ntunzi, nas notícias e suprimentos trazidos pelo tio Aproximado e no soldado Zacaria. O que ali fazia um soldado sem parentesco com aqueles homens? Cada um carregava a sua memória, exceto Mwanito que só tinha aquele isolamento como referência do que é a existência e tentava entender o que não conhecia a partir da bagagem daqueles que o cercavam. Aprende a ler e a escrever escondido de seu pai tirano. O afinador de silêncios ironicamente foi aos poucos descobrindo os sons. Aos 11 anos de idade viu uma mulher pela primeira vez na vida. Após a chegada misteriosa de Marta, as portas se abrem para o mundo real. Ela vai parar em Jesusalém enquanto viaja em busca de notícias de seu marido, mas acaba revivendo a existência de Dordalma na vida de todos. O mais delicioso desta leitura é a forma poética que os personagens tem de se expressar. Os significados são delicados e a compreensão de cada um deles por parte do leitor é tocante. “Antes de nascer o mundo” é a história do que aconteceu para aquele mundo ter se tornado o único lugar possível onde um fugitivo da dor iria habitar. O que acontece com Dordalma traz reflexões sobre as relações humanas e suas dores que reverberam em gerações. Dordalma, eu queria ter te conhecido mais…
Oração para desaparecer de Socorro Acioli
Joana (ou Cida?), você é fascinante. A sua perda de memória fechou a porta para a uma vida e abriu a janela para outra. Recebi um convite para desvendar contigo um caminho de acolhimento e mudanças. Ser apartada dos seus para encontrar outros que também serão seus. Como o tempo passa diferente para as pessoas e, às vezes, envelhecemos rápido por não sabermos deixar partir o que já mudou… No início foi difícil entender a subjetividade de ser um ressurecto. No fim, percebi que ser um ressurecto mais parecia uma missão. Minha imaginação caminhou pelas possibilidades de renascermos quando a vida nos oferece outra chance. A profundidade da conexão com o espiritual, com a ancestralidade, trouxe a continuidade de varias existências. Joana foi cuidada para ser fundamentalmente resistente e continuou escolhendo o amor apesar de nada lembrar do seu passado. Oração para desaparecer é uma história de fé com pessoas de fé. Uma protagonista corajosa e intensa em todas as suas camadas. É uma livro para ser sentido.