Estou com dificuldade de superar esta leitura. Mwanito, você ainda tinha tanto a me contar! Fui crescendo enquanto você descobria que o mundo não era apenas Jesusalém, aquela terra que tinha a missão de limpar as dores passadas. A inocência e curiosidade do nosso narrador vão costurando os acontecimentos que, apesar de difíceis, são descritos poeticamente por Mia Couto. Para seu pai, Silvestre Vitalicio, era possível esquecer os acontecimentos e abafar suas mágoas ignorando a humanidade. Ele havia se animalizado e são quase nulas as menções de confiança e afeto entre ele e seus familiares. Mas o mundo vivia na inquietude de Ntunzi, nas notícias e suprimentos trazidos pelo tio Aproximado e no soldado Zacaria. O que ali fazia um soldado sem parentesco com aqueles homens? Cada um carregava a sua memória, exceto Mwanito que só tinha aquele isolamento como referência do que é a existência e tentava entender o que não conhecia a partir da bagagem daqueles que o cercavam. Aprende a ler e a escrever escondido de seu pai tirano. O afinador de silêncios ironicamente foi aos poucos descobrindo os sons. Aos 11 anos de idade viu uma mulher pela primeira vez na vida. Após a chegada misteriosa de Marta, as portas se abrem para o mundo real. Ela vai parar em Jesusalém enquanto viaja em busca de notícias de seu marido, mas acaba revivendo a existência de Dordalma na vida de todos. O mais delicioso desta leitura é a forma poética que os personagens tem de se expressar. Os significados são delicados e a compreensão de cada um deles por parte do leitor é tocante. “Antes de nascer o mundo” é a história do que aconteceu para aquele mundo ter se tornado o único lugar possível onde um fugitivo da dor iria habitar. O que acontece com Dordalma traz reflexões sobre as relações humanas e suas dores que reverberam em gerações. Dordalma, eu queria ter te conhecido mais…
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